De que falamos quando falamos da morte?

 
       

      Visita guiada ao cancioneiro de Afonso Sanches

       Para ver os textos existentes sobre este assunto: Afonso Sanches

-Vaasco Martĩiz, pois vos trabalhades

 e trabalhastes de trobar d’ amor,

 de que agora, par Nostro Senhor,

 quero saber de vós que mi o digades;

 e dizede-mi-o, ca ben vos estará:

 pois vos esta, por que trobastes, já

 morreu, par Deus, por quen ora trobades?

 -Afonso Sánchez, vós me preguntades

 e quero-vos eu fazer sabedor:

 eu trobo e trobei pola melhor

 das que Deus fez – esto ben o creades;

 esta do coraçon non me salrá,

 e atenderei seu ben se mi o fará;

 e vós al de min saber non queirades.

 -Vaasco Martĩiz, vós non respondedes,

 nen er entendo, assi veja prazer,

 por que trobades, ca ouvi dizer

 que aquela por que trobad’ avedes

 e que amastes vós mais d’ outra ren,

 que vos morreu á gran temp’ e poren

 pola mort’ ora trobar non devedes.

 -Afonso Sánchez, pois non entendedes

 en qual guisa vos eu fui responder,

 a min en culpa non deven poer,

 mais a vós, se o saber non podedes:

 eu trobo pola que m’ en poder ten

 e vence todas de parecer ben,

 pois viva é, ca non como dizedes.

 -Vaasco Martĩiz, pois vos morreu por quen

 sempre trobastes, maravilho-m’ en,

 pois vos morreu, como vós non morredes.

 -Afonso Sánchez, vós sabede ben

 que viva é e comprida de sen

 a por que trob’ e vós sabê-lo-edes.

     O leitor que tem acompanhado esta série de textos depara hoje com uma novidade: todas as estrofes são iniciadas por um vocativo e são constituídas por uma quantidade apreciável de verbos na segunda pessoa. Estamos, então, na presença de um diálogo, ou seja, a meio caminho entre a poesia e o teatro. A este tipo de cantigas dialogadas chamam os especialistas tenção, correspondendo a uma espécie de disputa poética entre dois trovadores.
     Os nomes dos interlocutores surgem nítidos nos vocativos. O desconhecido é Vasco Martins, senhor dotado do sangue das melhores famílias da época, frequentador das cortes de D. Dinis e D. Afonso IV e vassalo de Afonso Sanches, enfim, um membro do jet-set de então.
     Neste pequeno teatro, cabe a Afonso Sanches a primeira fala. Começando por dizer que Vasco Martins teria concebido cantigas de amor (“trobar d’amor”), pergunta-lhe a quem vai, agora, dirigir os seus cantares, tendo em conta que a amada morreu.
     Na resposta, Vasco Martins não parece interessado em escolher outro alvo para as suas trovas, numa aparente demonstração de que morte do objecto amado não é impedimento para a sobrevivência do amor.
     Seguidamente, Afonso Sanches, revelando uma frieza quase cruel, insiste no absurdo de dirigir trovas a uma morta. É a estrofe seguinte que torna o texto desconcertante, uma vez que Vasco Martins afirma que a sua amada está viva, numa reviravolta de contornos quase telenovelescos, com a ressurreição da senhora que tinha estado aparentemente morta durante três estrofes.
     Esperar-se-ia, agora, que Afonso Sanches ficasse surpreendido por tal notícia, mas a verdade é que, ignorando aparentemente o interlocutor, volta a insistir na ideia de que a senhora teria morrido.
     A última intervenção de Vasco Martins parece revelar alguma agressividade ao afirmar que o seu oponente sabe bem que a senhora está viva.
     A ver se nos entendemos: um insiste na ideia de que a senhora está morta, mesmo quando o outro afirma que não. Para além disso, a última estrofe leva-nos a desconfiar que Afonso Sanches sabe que a amada do oponente está efectivamente viva. 
     Os estudiosos desta matéria têm tentado interpretar este misterioso texto, mas continua tudo em aberto. A questão está em saber o que significará a morte tão persistentemente enunciada por Afonso Sanches. A senhora terá entrado para um convento? Terá casado com outro? O que é certo é que nada fará desistir Vasco Martins de continuar a cantar uma mulher que “vence todas de parecer bem”.

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