25 de Abril quase sempre

             Há 34 anos, no dia 25 de Abril, aconteceu-me uma coisa inédita: a minha mãe disse-me que eu não ia à escola, sem sequer estar doente ou estar a fingir que estava. Foi o que se chama uma verdadeira revolução. É claro que não tinha tido muitas oportunidades de faltar às aulas, até porque ainda só estava na quarta classe, mas, pela primeira vez, a minha mãe, a mesma que se esfalfava a lembrar-me da necessidade de fazer os trabalhos de casa, de ser responsável, de levar a vida a sério, a minha mãe, dizia eu, impediu-me de ir às aulas.

Na altura, vivíamos em Lisboa e alguém ligara a dizer que havia tanques na rua. Na altura, ainda pensei que eram tanques da roupa, o que seria muito estranho e até poderia atrapalhar o trânsito, mas eram dos outros, de guerra. Ora, com 9 anos, as únicas guerras que conhecia eram as dos filmes em que, obviamente, só morriam os maus. Quando soube que os homens dos tanques vinham lutar contra o senhor Américo Tomás, estranhei: um senhor tão simpático, tão respeitavelmente careca, não podia ser mau. Ainda por cima, era Presidente da República, cargo que não podia ser desempenhado por maus da fita. Para cúmulo, tinha achado muita graça, quando, algum tempo antes, o mesmo senhor, apesar da idade avançada, saltara alguns degraus no Estádio Nacional, para entregar a Taça de Portugal já não sei a quem.

A alegria evidente dos meus pais, no entanto, fez-me pensar que, das duas uma, ou eram ambos maus ou, afinal, o senhor Presidente não seria assim tão bom. Depois de reflectir maduramente, durante cerca de dois minutos, decidi que os meus pais não podiam ser maus, primeiro, porque eram meus pais, e, depois, porque, de qualquer modo, ainda tinha de viver com eles mais uns anos e não me convinha nada que fossem maus. Ficou, portanto, decidido que os maus eram os outros, incluindo, então, aquele velho hediondo.

Mais ou menos uma semana depois, como acontecia nos anos anteriores, chegou o dia 1 de Maio. Desta vez, em vez de ficar em casa, fomos todos para a rua, onde, estranhamente, não havia lugar. Nunca tinha visto tanta gente na rua e a sorrir, mesmo nas paragens de autocarro, onde as pessoas ficavam instantaneamente tristes. Andavam todos com dois dedos no ar, que era o gesto que o meu pai fazia quando pedia uma cerveja para ele e outra para os amigos. Pensei que aquela gente devia gostar muito de cerveja. Resolvi aproveitar a confusão e pedir o mesmo. Quando me explicaram que aquilo era sinal de vitória, não pude esconder alguma desilusão e percebi que ainda tinha de esperar mais uns tempos até beber a primeira cerveja.

Entretanto, via imagens estranhas e ouvia palavras novas: presos políticos, fascismo, PIDE, Caxias, capitães, guerra colonial, direitos, trabalhadores, povo. Não compreendia tudo, mas também não era preciso, porque não é preciso perceber tudo de uma vez, especialmente quando se tem 9 anos.

Desde então, tenho aprendido algumas coisas, que não tomo como garantidas, porque já me bastou aquela desilusão com o Presidente que, afinal, não era dos bons. Aprendi, em primeiro lugar, que o 25 de Abril, sorriso do povo, também não está isento de erros, mas acredito que um dia em que as armas se enfeitaram com cravos merece muito crédito. Aprendi que uma revolução é apenas o início e que estaremos sempre longe do fim. Aprendi que a palavra é de ouro, num país em que fomos obrigados a comprar demasiado silêncio. Aprendi que é melhor ouvir o que as pessoas têm para dizer, especialmente se forem muitas e estiverem a dizer o mesmo.

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Uma resposta a 25 de Abril quase sempre

  1. Rui diz:

    Nem de propósito. No outro dia estive a conversar com o meu amigo Luís Pires, escritor premiado e dramaturgo, que me dizia estar a escrever um romence sobre a visão infantil do 25 de Abril. Não o 25 de Abril contado às crianças. Não. O 25 de Abril contado aos adultos, isso sim. E agora este texto lindo que aqui soltas. Na ocasião contei-lhe uma série de coisas. Que eu criara uma célula comunista no meu bairro, com os meus amigos onde nos afadigávamos com duas tarefas principais: propaganda comunista (acenar com bandeiras é irresistível para quem tem 9 anos) Gritar as tais palavras de ordem que como tu tínhamos aprendido há dias e dissecar sapos. Nada disto em favor de um mundo melhor. A não ser o nosso, evidentemente. Contei-lhe uma coisa que não tinha contado a ninguém. Dizia, num dos meus evitáveis excessos, que as crianças eram quem mais viveu o 25 de Abril. Não conscientes da verdadeira dimensão das ameaças – o Américo Tomás inaugurou o bairro onde vivi em Viseu e fez-me uma festa na cabeça – efabulávamos com negras cores a possibilidade de uma reviravolta, uma conrta-revolução. O meu pai explicara-me direitinho o que se passara nos últimos 48 anos. A ditadura e a tortura eram para mim realidades agora bem imediatas. O medo de um reviralho era sentido por todos. Mas só as crianças tinham verdadeiro medo. Eu recordo-me de pensar muitas vezes que o meu pai, que me levara a ver o Chove em Santiago e a conhecer a novíssima sede do Partido Comunista, podia muito bem ser um dos que seria preso caso as forças da “Reacção” vencessem um contragolpe. E, em momentos não muito ortodoxos, a medíocre educação cristã que a catequese me impingira levava-me a que secretamente, numa clandestinidade de sinal equívoco, rezasse pelo meu pai, para que nada nem ninguém o levasse de noite, como ele me contara que tantas vezes acontecia a quem dizia, pensava e fazia as mesmíssimas coisas que o meu pai.

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