Opinião de um jornalista acerca dos professores

Na verdade, não me apetecia comentar este texto, mas foi mais forte do que eu. Sou muito fraco. Leiam o que escreveu este senhor. O meu comentário vem logo a seguir.

A “besta negra”

Ponto e vírgula, Rafael Barbosa Chefe de Redacção adjunto

Mas, afinal, por que protestam os professores? Fazendo um apanhado de algumas das generalidades que lhes ouvimos dizer em sucessivas manifestações, uma das razões é o facto de muitos deles terem votado PS nas últimas eleições e de estarem agora “arrependidíssimos até à raiz dos cabelos”. Outra explicação é a de que, pelos vistos, a ministra está a “exterminar a classe dos professores”. E outra ainda de que “as salas de professores se transformaram em lugares de desencanto”. Do mal o menos, agarrando a frase como quem agarra uma tábua de salvação, foi a sala de professores, e não a sala de aulas, que se transformou em lugar de desencanto.

Não tenho nenhum interesse particular em defender a ministra da Educação. Considero, aliás, que muitas das boas medidas que fez aplicar nas escolas estão a ser aplicadas de forma deficiente [e muitas vezes graças à “greve de zelo” dos professores], o que pode transformá-las em medidas más. Mas vamos lá a ver a ninguém parece estranho que, de repente, milhares de pessoas decidam eleger Maria de Lurdes Rodrigues como a “besta negra” que há-de encher o país de analfabetos?

Rebobinemos este filme. Por que protestam os professores? Porque uma ministra decidiu que era tempo de impor a Escola a Tempo Inteiro, acabando com as tardes ou as manhãs livres? Porque uma ministra decidiu que era tempo de impor as aulas de substituição, combatendo o vergonhoso absentismo que se vivia nas nossas escolas? Porque uma ministra decidiu que era tempo de avaliar a prestação dos professores em vez de deixar prolongar a irresponsabilidade?

Tenho o máximo respeito pela profissão de professor. Mas só tenho o máximo respeito por uma parcela pequena dos nossos professores. Infelizmente, muitos deles não são mais do que verbo de encher. O desânimo e a incompetência que se vive nas escolas não são responsabilidade desta ministra. A “besta negra” dos professores é, provavelmente, os próprios professores.

                                                                      in “Jornal de Notícias”, 28-02-08

               

Quando leio um texto como este, apetece-me vaguear entre a hermenêutica mais básica, a ética jornalística e a condição de professor. Vamos lá, então.

                Comecemos por notar que o autor do texto assume a sua condição de jornalista (partindo do princípio de que só se pode ser Chefe de Redacção – mesmo que adjunto – de um jornal, se se for jornalista). É certo que nada disso o impede de dar a sua opinião acerca de qualquer assunto, ainda para mais num texto com honras de editorial.

                Humanos que somos, jornalistas ou não, podemos todos formar opiniões com mais ou menos ligeireza. É, aliás, um dos encantos da democracia e, até, da humanidade. No entanto, pergunto-me: se alguém apregoa a sua condição de jornalista, não deverá, a bem da dignidade profissional, ter um cuidado especial na emissão das suas opiniões, ainda mais quando alcançou a possibilidade de escrever um editorial, podendo, desse modo, influenciar a opinião de leitores? Não é um dever do jornalista investigar um assunto até ter a maior certeza possível? Será digno da sua profissão aquele jornalista que deixa escapar opiniões com base em boatos vagos ou em amostras inconsistentes? Será respeitável um jornalista cujo discurso, ainda que meramente opinativo, se arrisque a ficar ao nível da conversa de café em que se discutem questões com base em argumentos do género eu-até-ouvi-dizer-a-um-primo-meu-que ou o-Camacho-devia-era-meter-o-Makukula?

                Tendo em conta todos estes prudentes considerandos, estará Rafael Barbosa a dignificar a sua profissão? Lá chegaremos, atalhando pela hermenêutica, com passagem pela condição de professor.

                O autor abre com uma interrogação à qual responde prontamente, com base em “apanhados de algumas generalidades que lhes ouvimos dizer em sucessivas manifestações”. Podemos concluir que não escora a resposta numa investigação aturada? Poderei estar a ser injusto, mas isto dos “apanhados” de “generalidades” não será pouco consistente?

                Por que protestam, então, os professores, de acordo com os “apanhados” colhidos pelo jornalista? São três os protestos: uns estão arrependidos por terem votado no PS; outros queixam-se de que estão a ser exterminados; outros ainda apontam as salas de professores como locais esmagados pelo desencanto. Não nego que os professores tenham afirmado tudo isso, mas bastaria ouvir os manifestantes, para descobrir como razões de protesto, por exemplo, as aulas de substituição ou o sistema de avaliação. Talvez por ter visto as manifestações de longe, Rafael Barbosa tenha confundido desabafos com palavras de ordem.

                A terminar o primeiro parágrafo, o opinante mostra-se aliviado por saber que o desencanto se fica pela sala dos professores. Dir-se-ia que o senhor jornalista não é homem versado na vida dos sentimentos. Nunca reparou no sorriso idiota que qualquer apaixonado leva para todo o lado? Não notou, numa das suas deambulações, a tristeza evidente dos problemas que tanta gente carrega pelas ruas? O problema do desencanto, pela sua condição de sentimento, é que não é um objecto que se possa deixar guardado num compartimento e tem a maçadora tendência de acompanhar a sua vítima para todo o lado. Um bom professor tentará deixá-lo em qualquer caixote do lixo, mas o malvado do desencanto arranjará maneiras de se insinuar nas salas de aula. Talvez Rafael Barbosa tenha apenas querido ser engraçado. Talvez não tenha pensado que um professor desencantado resultará inevitavelmente no prejuízo do aluno. Talvez não tenha pensado.

                O segundo parágrafo começa com uma garantia de que não há conflito de interesses. Ficamos mais descansados. Logo a seguir, ficamos a saber que há “muitas” e “boas” “medidas”. Não custava nada enumerar duas ou três, mas talvez o autor tenha decidido deixar isso para o parágrafo seguinte. O que se fica a saber é que as medidas, apesar se serem muitas e boas, acabam por ser más, porque “estão a ser aplicadas de forma deficiente [e muitas vezes graças à “greve de zelo” dos professores].” Se é certo que o autor não avança pormenores quanto à “forma deficiente”, tem, pelo menos, a coragem de apontar alguns dos responsáveis: os professores, usando o estratagema da “greve de zelo” (as aspas poderão significar que se trata de uma força de expressão ou de uma citação?). Fica, assim, o assunto resolvido: as medidas são boas, maus são os professores. Como sabe o senhor jornalista de tudo isto? Quantos agentes beneficiados pelas medidas ministeriais entrevistou? Quantas páginas de legislação leu antes de concluir tão decidido? Silêncio.

                O parágrafo termina em beleza. Apetece-me citar longamente, respeitando o erro de pontuação: “Mas vamos lá a ver [omissão de dois pontos] a ninguém parece estranho que, de repente, milhares de pessoas decidam eleger Maria de Lurdes Rodrigues como a “besta negra” que há-de encher o país de analfabetos?” Não imagina o senhor Rafael Barbosa a vontade que tenho de fazer a mesmíssima pergunta. Na realidade, se post hoc, ergo propter hoc, não será possível identificar Maria de Lurdes Rodrigues com hoc? É, pelo menos, uma possibilidade: antes desta Ministra, a paz podia ser podre, mas não deixava de ser paz.

                No terceiro parágrafo, volta a mesma interrogação que já tinha surgido no início do texto: “Por que protestam os professores?” Se as interrogações que se seguem não fossem evidentemente retóricas, poderia responder a cada uma. A resposta era fácil: não. Os professores não protestam contra nenhuma dessas razões.

                Uma vez que é da natureza da interrogação retórica ser uma afirmação disfarçada de pergunta, o autor, afinal, pretende desvendar as razões que verdadeiramente presidem aos protestos da classe docente. Não sabemos qual o processo adoptado pelo jornalista para descobrir as verdadeiras intenções dos professores. Na realidade, não me parece ter ouvido ninguém a gritar: “Abaixo a Escola a Tempo Inteiro, vivam as tardes e as manhãs livres!” ou “Estamos em luta a favor do vergonhoso absentismo!” ou “Queremos o prolongamento da irresponsabilidade! Professores contra a avaliação séria!” Como terá, então, o perspicaz articulista descoberto aquilo que os professores tentam, com manifesta inabilidade, esconder?

                Esta série de críticas leva-me, ainda, a fazer algumas perguntas: o que entende por tardes ou manhãs livres? Será que correspondem ao tempo em que, estando fora da escola, os professores ficavam em casa a, por exemplo, preparar aulas? De que dados absolutos e relativos dispõe para provar que, no universo dos trabalhadores portugueses, é possível considerar vergonhoso o absentismo dos professores? Já leu e analisou atentamente a proposta de sistema de avaliação do Ministério da Educação?

                Acerca do último parágrafo, só consigo deixar escapar vulgaridades como “corolário lógico” e “a cereja em cima do bolo”, tão coerente se mostra a corajosa confissão do bravo autor: com a iluminação dos espíritos revoltados, afirma que muitos dos professores são apenas “verbo de encher”. Não é qualquer pessoa que consegue, de uma penada, qualificar um universo de cerca de cento e cinquenta mil pessoas, número que corresponderá, mais ou menos, à quantidade de professores que infestam o país de Norte a Sul. A origem para uma afirmação tão definitiva só pode estar numa investigação seriíssima ou numa leviandade irreparável. Se for o primeiro caso, não há necessidade de aplicar nenhum sistema de avaliação; basta pedir a Rafael Barbosa as informações de que dispõe e poupa-se tempo e dinheiro.

                Mesmo correndo o risco de parecer vingativo, não posso deixar de pensar que um texto destes diz muito da fraca qualidade de um jornalismo que não procura o rigor, não respeita a língua e não está minimamente preocupado em ser pedagógico. Espero que, um dia, haja um verdadeiro sistema de avaliação dos professores. Quando esse dia chegar, espero levar, no mínimo, um bom puxão de orelhas, se der uma aula com a mesma ligeireza com que o senhor Rafael Barbosa escreveu esta peça.

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3 respostas a Opinião de um jornalista acerca dos professores

  1. milu diz:

    PARABÉNS!! estou agora a descobrir oo seu blog e estou a gostar imenso. este texto está delicioso! gosto da sua delicadeza e elevação a discutir os assuntos, sem recurso ao insulto fácil e despropositado. CONTINUE!!

  2. Rui Correia diz:

    O melhor que aconteceu ao sr. Rafael Barbosa foi ter sido lido. O desespero de ser notoriamente tão desconhecido como inepto condu-lo a manigâncias destas que, sem dúvida é esse o seu propósito, o tornarão bem mais conhecido do que em todo o caso alguma vez o merecerá. Ao menos por razões prestigiantes. Parabéns.

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