“Será que estive a trabalhar?” ou “Aguiar e Silva, Baco e Os Lusíadas”

           

             Na passada sexta-feira, dia 12 de Outubro, dada a última aula, preparava-me para fugir da escola em direcção ao fim-de-semana. O meu objectivo seguinte era deslocar-me ao Teatro do Campo Alegre, onde iria decorrer a primeira de três sessões de concertos de jazz comentados. No momento em que ia iniciar a fuga, a Eunice disse-me que o Aguiar e Silva ia dar uma conferência sobre Baco n’Os Lusíadas, na Faculdade de Letras do Porto. Não demorei muito a decidir: as oportunidades de ouvir o meu antigo professor de Teoria da Literatura têm sido em muito menor número que as vezes que ouço música.

            Guardo os pormenores relativos ao conteúdo da conferência. Interessa-me aqui partilhar alguns pensamentos e sensações.

            Começando pelas sensações, recordei o prazer que senti, no quarto ano da minha licenciatura, ao assistir às aulas de Teoria da Literatura. Não sendo um homem especialmente simpático nem particularmente antipático, o professor Aguiar e Silva possui uma capacidade ímpar de comunicar e de pensar aliada a uma cultura sólida e diversificada. Recuperei o fascínio com ouvia aquelas exposições perfeitas.

            Seguidamente, dei por mim a fazer contas e descobri, contra vontade, que me licenciei há vinte anos, o que quer dizer que, metade da minha vida, tenho sido funcionário do Ministério da Educação.

            Sempre por associação de ideias, dei por mim, ao sair do Anfiteatro, a perguntar-me: o tempo em que estive a assistir a esta conferência deverá ser contabilizado como lazer ou trabalho? Pelo que já disse anteriormente, não há dúvida de foi um momento de lazer. No entanto, o facto de ter estado a ouvir um dos maiores especialistas em estudos camonianos não quererá dizer que estive a receber formação, ou seja, a trabalhar?

            Nos últimos dois anos, estes exercícios de contabilidade têm-me ocupado bastante. Na verdade, com um Ministério da Educação tão preocupado com o modo como os professores ocupam o seu tempo, uma pessoa tende a tornar-se picuinhas.

            Em que ficamos: será que estive a trabalhar e ninguém me avisou?

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