Bem podes limpar as mãos à parede!


       

      Visita guiada ao cancioneiro de Afonso Sanches

   Para ver os textos existentes sobre este assunto: Afonso Sanches

Poys que vós per hy mays valer cuydades,
mal vos quer’ eu conselhar, mha senhor;
pera sempre fazerde’ lo peyor,
quero-vos eu dizer como façades:
amad’ aquel que vos tem en desdem
e leixade min que vos quero bem
e nunca vós melhor enfus’ enchades.

Al vos er quero dizer que faredes,
poys que vos já mal ey de conselhar,
poys per hy mays cuydades acabar,
assi fazede como vós fazedes:
fazede ben sempr’ a quem vos mal faz
e matade min, senhor, poys vos praz,
e nunca vós melhor mouro matedes.

Ca non sey homen que se mais non queyxe
o que m’ eu queyxo d’ aver sempre mal,
por en digu’ eu con gram coyta mortal:
aquel que vos filhou nunca vos leixe
e moyra eu por vós, com’ é razon,
e, poys ficardes con el, des enton
coçar-vos-edes com a mão do peixe.

Do que diran poys, se Deus vos perdom,
por vós, senhor, quantos no mundo som,
liade todo e fazed’ end’ hun feixe.

Afonso Sanches

            Numa leitura transversal, limitada à tentativa de classificar o texto, o vocativo “mha senhor” (‘minha senhora’) levar-nos-ia a pensar que estamos diante de uma cantiga de amor. Imediatamente buscaríamos outros sinais comuns ao género e lá está o sujeito poético a declarar que quer “bem” à senhora ou a afiançar que sofre terrivelmente. (“coita mortal”).

            Passados estes momentos de desatenção, ao exercermos sobre o texto uma leitura atenta, alguns pormenores causariam estranhamento: tome-se como exemplo o segundo e terceiro versos em que o poeta afirma que quer dar maus conselhos à destinatária do texto para que ela escolha sempre o pior caminho. Esta ideia vai repetir-se ao longo das três primeiras estrofes, a par da concretização do (mau) conselho: a senhora deve amar quem não a ama e desprezar o poeta, apesar de se saber que este lhe quer bem. Estamos, então, perante um uso tão evidente da ironia que é fácil perceber que ou o conselho a transmitir é o oposto ou há.. outra coisa.

            Mudando, aparentemente, de rumo, é conveniente que o leitor saiba que um dos aspectos mais importantes desta cantiga está em cada um dos últimos versos de cada estrofe. Na verdade, cada um desses versos é constituído por provérbios, verdadeiros fósseis de expressões da sabedoria popular que se conservaram num texto de um trovador de sangue real.

            Acompanhando, então, cada um deles, o primeiro poderá ser traduzido por “nunca achareis melhor infusa” (“infusa” vem no dicionário). O provérbio seguinte significa que a senhora nunca matará melhor mouro. No último verso da terceira estrofe, ficamos a saber que a senhora há-de coçar-se com a mão do peixe (provérbio encontrado, anos mais tarde, na obra de António Ribeiro Chiado). Finalmente, o texto acaba com algo como “Atai tudo e fazei um feixe”. Todos estes provérbios mostram bem a sua raiz popular, para além de o segundo e o terceiro poderem conter algumas insinuações eróticas.

            A pergunta que devemos formular é: o que terá levado um nobre, ainda para mais de sangue real, a utilizar uma linguagem tão vilã, isto é, popular? Conjecturemos. Este é um texto satírico e o objectivo é, nitidamente, criticar a senhora. Na nossa opinião, os provérbios não servem apenas para declarar que a senhora faz uma má escolha. Servem, também, para caracterizar a escolha: esta senhora estava envolvida com um homem de condição inferior, opção considerada degradante. Não por acaso, o poeta usa a última estrofe para chamar a atenção para a inevitável maledicência de que a senhora será alvo.

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