pessoas com estas injúrias

            A confirmar-se esta notícia, só fica admirado quem chegou a acreditar que a privatização das televisões iria contribuir para uma melhoria de qualidade. Aliás, na mesma edição do Sunday Times, Bryan Appleyard faz uma reflexão acerca do problema, numa crónica cujo título é uma interrogação de resposta absolutamente incerta: “How bad can TV get?” Note-se, ainda, que a pergunta exclui a hipótese de a televisão melhorar.

            O que me traz aqui, no entanto, é comentar a qualidade da escrita do artigo publicado no Diário de Notícias de 5 de Junho. Leia-se a tradução das declarações do cirurgião plástico Peter Butler: “Temos de ter muito cuidado em evitar a exploração destas que são as pessoas mais vulneráveis da sociedade britânica. Programas como este podem reforçar a ideia de que a cirurgia ou outras intervenções conseguem resolver todos e qualquer problema de pessoas com estas injúrias. E não conseguem”.

            Traduzir implica, obviamente, conservar a informação original, mas não se pode fazer desrespeitando a língua de chegada.

            Em primeiro lugar, “ter cuidado em” é uma construção incorrecta. O que o jornalista queria escrever era “ter cuidado para” (noutro contexto, poderia utilizar “ter cuidado com”).

Logo a seguir, note-se o despropósito de uma expressão como “a exploração destas que são as pessoas mais vulneráveis da sociedade britânica”. Em termos formais, a contracção “das” substituiria com vantagem “destas que são as”. No que se refere ao conteúdo, basta ler que o cirurgião considerou que as pessoas com problemas faciais  são “some of the most vulnerable people in our society.”, ou seja, são algumas das pessoas mais vulneráveis e não as mais vulneráveis.

Mais à frente, deparamos com um rombo na concordância: “todos e qualquer problema”. Concedamos aqui a hipótese de se ter tratado de uma gralha.

O clímax desta má tradução, no entanto, está na expressão “pessoas com estas injúrias” (no original “people with these injuries”). A palavra “injúria” em português limita-se, ao campo moral, quando aplicada aos seres humanos. O termo inglês com a mesma origem latina, no caso das declarações do médico, refere-se obviamente a problemas físicos.

Finalmente, conceda-se alguma liberdade poética ao período final iniciado por uma conjunção copulativa a seguir a um ponto final, o que não acontece no original (“It can’t.”).

            Um jornalista é um profissional da palavra e deve ser rigoroso no seu uso. Este excerto foi escrito por alguém sem conhecimentos suficientes no que se refere à língua portuguesa. Para além disso, terá sido revisto por alguém que tinha a mesma competência. Outra hipótese é a de não ter sido revisto. Em qualquer dos casos, estamos diante de jornalismo de má qualidade, um jornalismo que despreza a ferramenta com que trabalha.

            Curiosamente, voltamos ao princípio: a comunicação social vive descuidada. Ética e gramaticalmente descuidada.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized com as etiquetas , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s