derrepente

Recebesse eu cinco euros de cada vez que li esta mutação vocabular em trabalhos de alunos e poderia, hoje, emprestar dinheiro aos bancos. Há que contar com as variantes “de repente” (tão rara quanto correcta) e “derepente” (bastante usual).

Como sempre tem ocorrido ao longo da minha carreira, sempre procurei transformar os comentários dos erros em momentos de aprendizagem através do trauma da humilhação colectiva. O erro, no entanto, resiste, a ponto de, daqui a uns anos, poder passar a integrar os dicionários, indiferente à indignação de uns escassos puristas de bengala.

Por outro lado, quando sou obrigado a comentar entre “derrepente” e “derepente”, elogio sempre os que escolheram o primeiro, porque esses, pelo menos, lembraram-se de que é necessário o dígrafo rr, obrigando um leitor à correcção fonética.

Sempre vi nesta metamorfose uma resistência quase poética à gramática, um neologismo que podia ter sido inventado pelos surrealistas. Na verdade, a ideia de repentino fica muito mais evidente no erro do que na expressão correcta, como se a forma reflectisse absolutamente o conteúdo, uma quase onomatopeia.

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