Rei Bradbury

A vantagem de se ser desorganizado é que se está constantemente a ser surpreendido. Há poucas ocasiões na vida em que eu não usufrua dessa vantagem. A leitura é uma delas.

Ora, em Janeiro deste ano, tive de ir ao Mercado Ferreira Borges, porque estava a decorrer um saldo escandaloso de livros, com propostas indecentes que guinchavam alarvidades como “20 livros a 5 Euros”. E lá estavam três mesas cobertas de livros. Aproximei-me, desconfiado da esmola. Trouxe livros que queria comprar há anos e outros que ainda hoje não quero comprar.

No meio da minha desorganização, juntei ao monte um certo Corta! de Malcolm Bradbury. Enrolado na voragem consumista, meti na cabeça que este era o Bradbury que tinha lido há uns anos, o do Fahrenheit 451 e do A Morte É um Acto Solitário. Mais recentemente, abalancei-me a lê-lo. Na badana, dizia que o homem é inglês. “Mas o gajo não era americano?” pensei. Devia ter-me enganado. E li tudo, sempre na convicção de que era o americano que não era. Pelo caminho, até conseguia descortinar um tom familiar, o chamado je-ne-sais-quoi (e não sabia mesmo).

As pessoas decentes que estiverem a ler isto já sabem que o Bradbury que eu tinha lido era o Ray, completamente americano. Nada da minha ignorância, no entanto, me impediu de apreciar uma novela de um humor muito britânico (como é que podia ser um autor americano com um humor tão nitidamente britânico?).

Já que estamos em maré de confessar pecados, aí vai mais um: o que me agarrou no início e me empurrou para dentro do livro não foi tanto a forma, mas o conteúdo. É que as duas primeiras páginas fizeram-me pensar tanto neste Portugal socrático. Transcrevo, com pinças, o primeiro parágrafo. Uma pessoa até fica com pele de galinha.

“Era o Verão de 1986 e por todo o lado havia cortes. Todas as manhãs, ao abrirmos o jornal – isto é, se líamos os sérios, o dos valentes repórteres que todos os dias saltam o arame farpado (que corta como navalha de barba) e voltam com uma coisa mais ou menos parecida com informação – «corte» era o mais comum dos substantivos, «cortar» o verbo mais regular. Eles estavam a fazer incisões de bisturi na indústria pesada, eles estavam a cortar o aço às fatias, eles estavam a cortar – pouco carvão extraindo já – no carvão. As artes era à machadada, as ciências postas a fazer regime, a inflação e os serviços externos da BBC objecto de cortes. Eles estavam a reduzir os gastos públicos, eles estavam a baixar as taxas de juro, eles estavam a eliminar a sobreprodução e os postos de trabalhos não necessários. Os ministros cortavam a fita na abertura de novos troços minúsculos de auto-estrada; nas Finanças cortavam o fato com o pano que tinham. Eles estavam a fazer em picado as escolas, a desbastar as universidades, a dar tesouradas no serviço nacional de saúde, a esculpir os hospitais, a fechar blocos operatórios – de modo que, pelo menos num sentido, havia de longe muito menos cortes do que dantes. Eles estavam a cortar o desperdício à faca, a reduzir o supérfluo a cavacos, a extirpar o excesso rastejante. Havia pessoas que diziam que estavam a cortar o país em dois – o Norte do Sul, os ricos dos pobres. Havia outros, principalmente os que tinham sido cortados, que se queixavam de que os cortes eram uma espécie de hara kiri nacional, a auto-mutilação dum país no último estádio da decadência. Outros havia porém, na sua maioria os que tinham feito uma boa parte dos cortes e que agora queriam ver um corte nos respectivos impostos, que explicavam que tudo isto era uma forma de cirurgia saudável, a eliminação das excrescências, da podridão e do cancro, e que o país ia ficar melhor do que dantes.”, Malcolm Bradbury, Corta!, Publicações Dom Quixote, pp. 11-12

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